O perfil de um traidor

Judas Iscariotes 

Judas Iscariotes (em hebraico יהודה איש־קריות, Yehudhah ish Qeryoth; em grego bíblico Iouda Iskariôth ou Iouda Iskariotes  foi um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo, que, de acordo com os Evangelhos, veio a ser o traidor que entregou Jesus Cristo aos seus capturadores por 30 moedas de prata. Era filho de Simão de Queriote (Jo 6, 71; 13, 26). Judas, em grego Ioudas, é uma helenização do nome hebraico Judá (יהודה, Yehûdâh, palavra que significa "abençoado" ou "louvado"), sendo, por sinal, o nome de apóstolo que mais vezes aparece nos Evangelhos (vinte vezes) depois do de Simão Pedro. 

 

A história de Judas apresenta o triste fim de uma vida que poderia ter sido honrada por Deus. Houvesse Judas morrido antes de sua última viagem a Jerusalém, e teria sido considerado digno de um lugar entre os doze, e cuja falta muito se faria sentir. A aversão que o tem acompanhado através dos séculos não teria existido, não fossem os atributos revelados ao fim de sua história. Havia, porém, um desígnio em ser seu caráter exposto perante o mundo. Seria uma advertência para todos quantos, como ele, traíssem sagrados depósitos. 

Pouco antes da páscoa, Judas renovara seu trato com os sacerdotes para entregar Jesus. Combinou-se então que o Salvador fosse aprisionado, imediatamente, no retiro aonde costumava ir para orar e meditar. Desde a festa em casa de Simão tivera Judas oportunidade de refletir no ato que concordara praticar, mas seu propósito ficou imutável. Por trinta moedas de prata - o preço de um escravo - vendeu o Senhor da glória para a ignomínia e a morte. 

Judas tinha naturalmente grande amor ao dinheiro; mas não fora sempre bastante corrupto para praticar um ato como esse. Alimentara o mau espírito de avareza até que se lhe tornara o motivo dominante na vida. O amor de Mamom sobrepujara o amor de Cristo. Tornando-se escravo de um vício, entregou-se a Satanás, para ser impelido a toda extensão do pecado. 

Judas unira-se aos discípulos, quando as multidões seguiam a Cristo. Os ensinos do Salvador lhes tocavam o coração enquanto, suspensos de Seus lábios, escutavam o que dizia na sinagoga, à margem do lago, sobre o monte. Judas via os doentes, os coxos,  os cegos aglomerarem-se em torno de Jesus, vindos de aldeias e cidades. Via os moribundos que Lhe depunham aos pés. Testemunhava as poderosas obras do Salvador, na cura dos enfermos, na expulsão de demônios, na ressurreição de mortos. Experimentava em si mesmo o testemunho do poder de Cristo. Reconhecia serem Seus ensinos superiores a tudo quanto ouvira anteriormente. Amava o grande Mestre, e anelava estar com Ele. Tivera desejo de ser transformado no caráter e na vida, e esperava experimentar isso mediante sua ligação com Jesus. O Salvador não repelira Judas. Dera-lhe lugar entre os doze. Confiou-lhe a obra de evangelista. Dotou-o de poder para curar os doentes e expulsar os demônios. Mas Judas não chegou ao ponto de render-se inteiramente a Cristo. Não renunciou as suas ambições terrenas, nem a Seu amor ao dinheiro. Ao passo que aceitava a posição de ministro de Cristo, não se colocou no divino molde. Achava que podia reter seus próprios juízos e opiniões, e cultivou a disposição de criticar e acusar. 

Judas era altamente considerado pelos discípulos, e exercia sobre eles grande influência. Tinha em elevada estima as próprias aptidões, e considerava seus irmãos como muito inferiores a si, no discernimento e na capacidade. Não viam suas oportunidades, pensava, nem se aproveitavam das circunstâncias. A igreja nunca prosperaria tendo como guias homens de vistas assim curtas. Pedro era impetuoso; agia sem consideração. João, que entesourava as verdades caídas dos lábios de Cristo, era olhado por Judas como um fraco financista. Mateus, cujo preparo lhe ensinara a ser exato em tudo, era tão meticuloso em questões de honestidade e estava sempre pensando nas palavras de Cristo, absorvendo-se com elas por tal forma que, segundo o juízo de Judas, não era de confiar que fosse capaz de agir com argúcia e vasto alcance nos negócios. Assim passava Judas em revista todos os discípulos, e lisonjeava-se de que a igreja se veria muitas vezes em perplexidades e apuros, não fora sua habilidade como administrador. Considerava-se o capaz, o inexcedível. Era, em sua própria estima, uma honra para a causa, e como tal se apresentava sempre. 

Judas estava cego para a fraqueza de seu caráter, e Cristo o colocou onde pudesse ter oportunidade de ver e corrigir isso. Como tesoureiro dos discípulos, era chamado a providenciar quanto às pequeninas necessidades do grupozinho, e a suprir as faltas dos pobres. Quando, no cenáculo, Jesus lhe disse: "O que fazes, fá-lo depressa" (João 13:27), pensaram os discípulos que Ele lhe pedira que  comprasse o que era preciso para a festa, ou que desse qualquer coisa aos pobres. Servindo aos outros, Judas poderia haver desenvolvido espírito abnegado. Mas ao passo que ouvia diariamente as lições de Cristo e Lhe testemunhava a vida isenta de egoísmo, Judas condescendia com sua disposição cobiçosa. As pequenas quantias que lhe chegavam às mãos eram uma tentação contínua. Muitas vezes, ao prestar qualquer serviçozinho a Cristo, ou dedicar tempo a fins religiosos, remunerava-se à custa desses parcos fundos. Esses pretextos serviam a seus olhos de escusa para a ação que praticava; perante Deus, porém, era ladrão. 

A tantas vezes repetida declaração de Cristo de que Seu reino não era deste mundo, irritava Judas. Estabelecera um limite de espera à obra de Jesus. Em seus cálculos, João Batista devia ser libertado da prisão. Mas eis que foi permitido ser ele degolado. E Jesus, em vez de afirmar seu direito real e vingar a morte de João, retirou-Se com os discípulos para um lugar no campo. Judas queria uma luta mais agressiva. Pensava que, se Jesus não impedisse os discípulos de executar os próprios planos, a obra seria mais bem-sucedida. Observava a crescente inimizade dos guias judaicos, e viu seus desafios desprezados quando pediram a Cristo um sinal do Céu. Abriu-se-lhe o coração à incredulidade, e o inimigo forneceu pensamentos de dúvida e rebelião. Por que Jesus Se demorava tanto em coisas desanimadoras? Por que predizia provas e perseguições para Si mesmo e para os discípulos? A perspectiva de um lugar de honra levara Judas a desposar a causa de Cristo. Viriam suas esperanças a ser decepcionadas? Judas não chegara à conclusão de que Jesus não fosse o Filho de Deus; mas estava duvidando e procurando alguma explicação para Suas poderosas obras.

Pr Jonas Neto